Home

#
O meu pai na gaveta...
Escrito por Sonia A. Blota Jr.   

Tempestade em São Paulo. Ainda no tempo que a cidade era a terra da garoa. Relâmpagos, trovões, eu apavorada. Meu pai me leva pela mão até a janela: “Olhe filha, não tenha medo do trovão. Ele é o barulho que nos avisa a que distância o raio está, é o som que avisa os animais e as pessoas do perigo.

Se você contar quantos segundos leva entre a luz do raio e o som do trovão, vai saber se ele caiu perto ou longe. E a medida que for contando,vai perceber que o tempo aumenta e que a tempestade diminui a cada som, o que mostra que ela está seguindo seu caminho e tudo vai ficar bem.”

O que percebi depois de um tempo era que contar me acalmava, me fazia mais segura em relação ao meu medo e que eu ia relaxando, devagar e acabava dormindo. Que as palavras dele, dizendo que o raio descarregava ozônio ou algo assim na atmosfera (a Ecologia ainda não era assunto obrigatório e ele já tinha essa consciência) me fazia confiar na Natureza, admirar seu poder e saber que aquele homem, além de ser para mim um pai-fortaleza, era um pai-culto. E muito amoroso.

Daqueles amorosos de fazer casinha com as cobertas para os meus pés, aquecendo meu corpo e meus medos, que eram muitos.

Fortaleza por ter estado nos mais altos postos da política e das artes desse país sem se contaminar com a vaidade excessiva ou com a febre do poder desmedido. Aí reina a minha maior admiração e minha herança mais preciosa.

Foi dele que herdei essa parte que eu chamava de caipira, mas hoje sei que é ecológica, da minha alma: é um grande pedaço de mim que não gosta de desperdiçar nada! Comida então, só falta eu guardar dentro da gaveta depois do jantar pra dar pra galinha ciscar, como dizia a piada (comprovada até) do mineiro. E comer de tudo: mesmo os quiabos da vida. E não fazer cara feia para experimentar alimento nenhum. De lembrar sempre dos que não tem fartura todos os dias, nem privilégios e orar por eles.

Alma caipirológica que se preza não faz mal nem a uma formiguinha, desvia dela mesmo na rua, mas se permite comer o peixe que pescou numa tarde preguiçosa, de chapéu de lona e calça folgada.

img080810a

Outra permissão é de chupar laranja com bagaço no final da tarde, parecendo que está sentada no degrauzinho da entrada da casa do sítio, mesmo morando num loft no sétimo andar na capital paulista.

Essa herança de meu pai me faz trocar qualquer coisa por uma prosa ao redor da mesa com gente querida, me arrepiar inteira ouvindo sinos ao longe, chorar olhando noiva ou festa de aniversário de criança...

Essa caipira ecológica me deixa muito esquisita logo antes de cair uma chuvona, feito cavalo no estábulo, andando e meio que relinchando baixinho e depois que a chuva começa a cair, sentir na pele que o mundo voltou ao seu lugar. E guardar a sensação da terra molhada fresca na memória e achar que depois da chuva sempre tem aquele cheiro divino de dama da noite ao redor.

De ostentação, quero distância! Já viu caipira mostrar nas roupas ou nas jóias o dinheiro que tem? Bota discreta, camisa também.

Deuses nos livrem também do orgulho que sempre me deu a impressão de arrogância: ninguém é melhor que ninguém. Tenho um pudor exagerado até de falar das minhas angústias, de expor minhas dificuldades. Melhor conversar do tempo. Ou das flores...

Quando a conversa pode ser sobre os meus temores e vergonhas, prefiro conversar por bilhetes, assim como ele fazia comigo. Guardo centenas de recadinhos carinhosos, notícias escritas na madrugada de quem trabalhava 18 horas num dia, preocupações paternas de quem queria ser mais que um pai, ser quase uma mãe, avó, irmão, tudo junto!

Esses bilhetes ficam dentro de uma gaveta no meu quarto, na escrivaninha que foi do pai do meu pai e que me acompanha em todos os lugares que moro.  Desde que não posso mais ouvir seus conselhos ao vivo, quando um de meus filhos tem uma dúvida vamos juntos abrir a gaveta e tirar um papel, assim, sorteado. O resultado? É emocionante saber que ele continua a tocar os corações dos meus filhos exatamente como sempre tocou o meu, com frases que cabem perfeitamente naquele momento, poéticas, sábias.

Como um pai-fortaleza, pai-culto, sim. Mas acima de tudo um pai-amor.

Esse texto vai com meu sobrenome de solteira, Sonia Angela Blota Jr., que ele fez questão de colocar assim, como sua marca de filho do Blotta avô, em mim, filha do paizão Blota Jr.

E vai com o link do museu virtual que montei, com todas as recordações que guardei esses anos todos, onde espero um dia poder colocar essa galeria de metáforas criadas por ele e que me dá um orgulho danado!  

Benção, pai! 

Sonia A. Blota Jr.

 

Sonia Ribeiro, que será homenageada no "Dia das Mães" como "mãe artista do ano", estará no Sábado com Você, no canal 7.
Diário de Jundiai, 30/04/1966
#
canakkale sehitleri vergi kanunlari finans denetim exploit vergi kanun mevzuat engelli blog ne zaman emekli olurum denetim mevzuat denetcilik kanun tuzuk yonetmelik exploit sorgula kanun yonetmelik toplu pagerank google sra sorgulama emeklilik coklu toplu pagerank google pagerank pagerank sorgula toplu pr sorgula php script decode encode google sram kac google sra sorgulama site pr alexa sorgu seo sitesi google seo php script decode encode script encode decode