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Prefácio de Blota Jr. para o livro “Como falar corretamente e sem inibições”, de Reinaldo Polito PDF Imprimir E-mail
Escrito por Blota Jr.   

A alma de um livro é a sua íntima e generosa proposta, sua intenção e objetivo. É aquilo a que se impõe buscando abrir o seu caminho, disposto a existir. Mas seu coração está no que se propõe, como ideal e doação. Ao encontrar a resposta da mensagem que encerra, qualquer que seja, lírica ou perturbadora, consoladora ou panfletária, realiza um milagre de comunicação, e aí, somente aí, terá valido a pena ter sido escrito. E impresso. Mais que tudo, ser lido.

Falar. Corretamente. Sem inibições. Eu já desacreditava que num mundo de gestos rituais, de linguagem mímica, de monossílabos, de interjeições guturais, isso ainda viesse a ter importância. Vindo de uma geração na qual aprender a língua, e cultivá-la, conhecê-la através do Latim (por mais que isso nos custasse), era a pedra angular de qualquer profissão, assim como tantos outros, eu já supunha encerrado o tempo dessa arte tão cara e tão bela de falar bem. Corretamente. E sem inibições.

Ao participar, certa noite, da cerimônia de entrega de certificados de conclusão de um Curso de Expressão Verbal, uma pequena luz de esperança tiniu (no meu mundo de imagens e sons, nada impede que um lampejo remoto de luminosidade se acompanhe de um breve som cristalino) bem lá no meu fundo. A simples existência de um Curso de Expressão Verbal já supunha missão heróica... e inglória. Mas, naquela noite, sentado à mesa, vi desfilar, uma a uma, pessoas que durante semanas deixaram de lado o lazer e o descanso, algumas delas encanecidos dirigentes de empresas, atendendo a uma necessidade muito íntima de saber transmitir suas idéias e planos, de aprender a comunicar sonhos e sentimentos. Era como uma formatura, carregada de emoção, diferente apenas porque seria impossível definir ali o traço de ligação de um grupo heterogêneo, capaz de perturbar qualquer especialista de pesquisa, desses que tabulam “razões motivacionais”, “faixas etárias”, “situação socioeconômica”, “origem étnica”, “grau de escolaridade” e outras altas e inúteis indagações.

Foi assim, e ali, que recebi confortadora sensação de reencontro com meu velho amor pela oratória, nascido nos bancos ginasianos, ungido e confirmado sob as Arcadas de São Francisco, e que me tem valido pela vida adentro, no rádio, na televisão, nos palanques, nas tribunas parlamentares a até forenses, como bissexto defensor no Tribunal do Júri.

Nasceu ali, e assim, minha admiração pelo trabalho correto e apaixonado do Professor Reinaldo Polito — e daí, possivelmente, esta apresentação com que nada lucra seu livro, mas serve como depoimento de aplauso e entusiasmo sincero.

A alma de seu livro consiste na minuciosa colheita de antecedentes históricos, da ordenação sistemática de ensinamentos altamente válidos, da busca de exemplos imortais de mestres da expressão e da retórica. E o coração se abre no desejo de que seus leitores encontrem um roteiro seguro para a ambição legítima de saber transmitir, comunicar, expressar-se. Temos lutado sempre por liberdades fundamentais, entre as quais se inclui, vital e nobre, a liberdade de expressão. A ela, sem dúvida, corresponde o dever da expressão certa, a idônea, democrática na essência e formosa na construção. Assim, será perfeita.

O meritório trabalho de Reinaldo Polito se inicia “a partir da pesquisa do comportamento de milhares de homens e mulheres pressionados pelo medo de falar em público”. Bem a propósito, usa o termo “medo”, que a princípio parece não se compadecer (pela conotação infantil ou imatura) com a figura de executivos e profissionais liberais, conceituados e respeitáveis, que muito frequentemente se omitem e não participam, com sua opinião e seu conhecimento, em reuniões onde sua palavra seria proveitosa. Estabeleceu sua filosofia de trabalho “na valorização das qualidades de cada um, sem considerar falhas ou aspectos negativos de sua apresentação”.

Assumindo a responsabilidade de que seus alunos venham a falar em público com desembaraço e sem inibições, este jovem condutor de ideias justifica a velha assertiva de que “os poetas nascem, e os oradores se fazem”. De outra maneira (vá lá a reminiscência histórica, por mais antiga que seja) nossos velhos conhecidos Demóstenes, Cícero e o menos votado Quintiliano jamais teriam atravessado a poeira dos tempos se não tivessem “aprendido” a falar com desembaraço e sem inibições. Embora, curiosamente, grandes mestres da retórica ateniense jamais tivessem sido grandes oradores, mais capazes de ensinar que praticar.

É verdade que o autor não exige pouco. Determinando que o orador não nasce feito, mas deve desenvolver qualidades potenciais, nosso jovem mestre incumbe-se de regar e florescer requisitos (que considera imprescindíveis) de memória, humor, habilidade, inspiração, criatividade, entusiasmo, determinação, audição, teatralização, síntese e objetividade, ritmo, voz, vocabulário, expressão corporal, naturalidade, conhecimento.

Assustador? Desestimulante? Não, nem um pouco. É um desafio novo e até encorajador, e que a própria leitura deste livro torna tarefa amena e gratificante.

Vale a pena acrescentar que este livro nada esquece na abertura dos caminhos e, sem a pretensão de um tratado pomposo e cansativo, indica e orienta, e, mais que tudo, nos acompanha a cada passo, a cada necessidade, em cada situação. Desde falar a crianças, a jovens, a idosos, a mulheres, até a multidões, sempre a observação a um tempo segura e tranquila, a palavra certa na hora certa. É sempre difícil escapar da tentação de ensinar “o que” falar, para chegar ao pedagógico “como” falar. Até aí o autor é realmente mestre de comunicação verbal, e se alteia da cômoda e lucrativa fórmula de um banal “Guia Prático do Orador Moderno”, naquele mesmo invencível estilo de “Secretário dos Amantes” ou o “Guia Epistolar para Efemérides Diversas”...

É, sem dúvida, o orador a expressão mais completa e rutilante do comunicador. A ele compete enfrentar os auditórios, sejam pequenos comitês, sejam multidões farfalhantes na imensa praça pública. A ele cabe transmitir a nova, a idéia, a mensagem, a luz. Ali está a sua plateia, ou fria, ou indiferente, ou inamistosa, ou expectante, ou fanatizada, ou enlouquecida. A partir do instante em que desfecha a palavra inicial, não mais se pertence ou se protege. Cabe-lhe enfrentar a incontrolável maré, e vencê-la. Por sua voz, e apenas pelo que fala, ou domina ou se perde. Ou convence, ou se frustra. Pela simples força da sua expressão, terá de conquistar uma vontade esquiva e dispersa. Necessita persuadir, comover, abalar, conduzir a força estranha na direção que deseja. E sentir que tudo afinal se realizou por força da palavra, brotada do coração sensível, nascida da alma transportada em êxtase, sentir que se alcançou não apenas uma transigente benevolência, mas a rendição total dos espíritos.

Nada se compara a esse instante de milagre, quando o orador parece tocar-se de divina centelha, e transfigura-se, incendiado da mais viva inspiração, como se dos mistérios do infinito mil forças viessem se juntar à sua força, e mil vozes se reunissem à sua possante voz canora, que então escachoa, iluminada, dominadora e irresistível, arrebatando, elevando, transportando almas e corações às altas regiões onde o espírito humano é mais puro e mais digno.

Para citar as palavras de Ruy: “Como o espírito do Senhor se librava sobre as águas, a sensação da iminência de um poder invisível paira sobre a tribuna ocupada por um verdadeiro orador. Já ninguém se engana com a corrente do fluido imponderável e maravilhoso que se apodera das almas. É a espontaneidade, a sinceridade, a liberdade em ação”.

Inimigo a ser vencido, fera a ser domada, deslumbradora mulher a ser conquistada, o auditório está a nossa frente, em cada momento, em nossas vidas. Não cuide o orador de que fará melhor em “vendendo-se” ou “vendendo uma ideia”. Esse é apenas um vulgar “marketing” da oratória, que se encerra uma vez concluída a venda do produto. É muito pouco.

Todo o brilho, toda a beleza, toda a expressão da verdadeira eloquência resiste ao tempo, imortaliza-se na lembrança, permanece viva e indelével na emocionada memória dos que participaram daquele mágico instante de criação, em que um homem, pela simples força de sua palavra, foi capaz de render a seus pés a multidão maravilhada.

Blota Júnior

Livro: “Como falar corretamente e sem inibições”
Autor: Reinaldo Polito
Editora: Saraiva


 

Sonia Ribeiro passou a apresentar o popularíssimo 'Astro do Disco" .
Melhores da TV, 05/1966
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